15 junho, 2017

outono


sonhei com você
e acordei com saudade
de tudo
aquilo que a gente ainda não viveu.
nunca esqueço o teu nome
desvio o meu sorriso
de dentro
e caio em cima
do azul
do teu
peito 
sutil.

//o tempo não (r)existe//

enquanto disfarço a voz calada,
a melhor forma de abrir os olhos
é te ver sorrir
sem ação 
e sem criar 
qualquer imagem
irreal.

//nem o reflexo dos espelhos
te reproduzem fielmente.//

não mais repetimos a mesma história.
quero escrever a minha linha
na sua
sem precisar de metonímia alguma.
tiro o peso do meu corpo
e te carrego na memória presente
da vida 
do universo
da nossa única 
&
entrelaçada 
(c)alma.

09 maio, 2017

pág. 121


você vende amor onde não existe*
e só enxergo o que ninguém pode comprar.
o desejo é fome
que não mata na boca
enquanto o peito insaciável 
se alimenta no desencontro
do dissimulado perlustrar.

toda vez que falo o seu nome
e (des)conto todas as histórias,
vivo a eterna poesia 
morrendo em curta prosa.

//apenas o real é recíproco//

amor à primeira vista
exige um prazo ilimitado.
não importa mais o onde
muito menos o entretanto.
deixo qualquer dívida aos juros do acaso,
e a necessidade ilusória 
nos rabiscos de um livro:

até quando eu posso continuar te imaginando?

se amar é renunciar à força, 
o quase sempre é intangível.

---


*verso de j. motter 

24 outubro, 2016

azos


hoje,
o azul-céu se abre
e ainda é primavera
para nós,
mas nada disso 
realmente importa.

a estação presente
sempre se transforma 
quando a ausência 
do jardim atinge a luz 
no espelho
do meu centro.

já a certeza que te rega
faz qualquer dúvida 
ser constante regra
e o sentimento 
um mero
contrato verbal.

quando o amor não pede tempo
só a dor 
é sazonal.

14 outubro, 2016

ética socrática


eu quero gritar seu nome
mas não espero que você escute
desviei todos os meus dedos
anseios
desejos
e disparos
do seu endereço

você foge de mim, mas não corre
fita
some
fica
incita
insônia
só a noite e toda a sua plenitude
fazem valer o tempo perdido

não choro
nem procuro
não encontro
nem me iludo

eu sei de tudo o que sinto
só não sei o que você sente.
infelizmente,
ainda te amo
como nunca amei 
ninguém.
por isso,
fico com o vazio
que só eu tenho

(mas sei que bem aí no fundo
você também
tem)

10 setembro, 2016

czarismo


é sempre uma tortura
a (re)volta do sentimento.
o corpo padece 
e expurga
qualquer silêncio
do sofrer.

//sentir é puro instinto//

quem dera ser rainha
imperatriz 
ou rei davi 
e ditar a dor
de um povo que mal conhece
a realeza das terras
(ainda não)
habitadas.
se eu fosse midas
o outro seria ouro
e não pedra bruta com poucos recursos.
qualquer mina que se descobre,
ou chão e estrada que se pisa
só tem valor e sentido
se tiver passo
e(m) movimento.

//andar é o único impulso//

não sou de fases, 
eu sou estado. 
me perco sempre na procura
que maltrata e abusa
o meu próprio reino triunfal.
se eu sugo e não assopro,
o simples vento que perdura
faz temporão 
ser encontro
(a)temporal.

//toda guerra é um pacto//

não quero alma gêmea
desejo um par revolucionário.
por isso esqueço das dores,
e me fortaleço nas guerrilhas.
o maior temor que existe 
não é viver sem saber
aonde o terrorismo
voluptuoso
começa,
mas sim 
quando
o amor
vitorioso
termina.

04 setembro, 2016

temporão



todas as nuvens são passageiras.
sempre haverá luz e escuro
enquanto houver
sol & lua.

//qualquer conjunção é consenso//

dosar a procura é igualar
a quantidade certa.
a parte mais fina 
com a parte mais grossa
é pura
separação

para saber o peso preciso
a poeira cósmica exige movimento
necessário
e dividido.
não é precisão.
nem tudo que é pe(n)sado 
tem sentido
justificado
ou prudência
astrológica.

o equilíbrio da vida
não se faz na balança
mas sim 
na peneira.
a sanidade só vale
quando sabemos 
o verdadeiro valor
que decanta
e afiança 
a inestimável 
real loucura

//toda transação pe(r)de tempo//

a única 
unidade de medida
é a construção da
pausa
em movimento
sem ao menos 
se importar
com a causa
a mesura
ou o efeito.

quando toda verdade 
for consequência
nem a ponderação
do eclipse
será meio-termo.

31 agosto, 2016

egrégora

todas as vezes em que te abracei,
na mesma hora
o meu corpo cai
e o sentimento
para
se divide
e se reconstrói
em segundos,
semanas,
destinos
e distâncias
mastodonticamente 
irrisórias.

eu 
&
você
em nós.

nunca sei sobre
os sentidos e pronomes 
quando eu me encaixo
na sentença do seu laço.

na verdade,
eu sempre sigo o meu desejo
procurando algum rastro
que ficou
no vazio da sua inteireza.

não quero o tempo contado
eu só conto com a certeza 
da imaginação do meu 
próprio (t)ato.

te encontro em qualquer canto
e qualquer cheiro
tropeçando 
no calor e no bálsamo de seja lá quem for.

//nada é o mesmo//

todo conjunto que me relaciono
é mero detalhe que permanece
passageiro.

sendo o quase
um sim 
um talvez
não 
importa?

eu continuo
me perdendo nos outros
recortes e perguntas
que refazem os seus passos
em todas as respostas e pessoas
que nem faço mais questão
de acertar o nome.

já que freud não me explica
e nem platão idealiza,
sigo transformando
qualquer essência 
aroma 
e prosa
em poesia
concreta
e corpórea
através
de retratos
que constróem 
o enlace 
que vai
no perfume
que fica
enquanto seu
abraço
(não)
sai.




26 agosto, 2016

patologia


já morri mil vezes nessa vida,
todo o meu amor foi cancerígeno.
seja ele astrológico ou 
puramente metafísico
nunca descubro a cura
já que a dor que sinto
foi a perda da morte
na procura do sentido
de alguém que não mais 
existe em mim,
mas ainda assim 
respira
o ar que eu inspiro.

ensinei e apr(e)endi.
escrevi, cantei e toquei
qualquer nota
além do ritmo
e batida,
mas nada disso importa.
melodia é melancolia cantada.
minha reza sempre se justifica
enquanto (des)conto toda a fé 
e dívida
nunca ao acaso,
sempre à vista.

doença que não sara
transtorno que não passa
não é estigma
é enigma.
a loucura é vital
e o sofrimento só é viral
se a ação for racionalmente
passional.

//todo crime fatal é castigo.//

quando o encontro 
é a saída,
a mesma porta
que eu entro
é a mesma 
que eu saio.

o tratamento é matar ou morrer
(a morte é simbolismo)
eu aceito.
a volta tenra da ida 
é sempre um recomeço
dos meus eternos
vínculos 
e vícios.

se o amor é entrada,
espero todo tempo e prazo.
transformo o sentimento
renascendo das cores
e não das cinzas.
eu transcendo em cada ciclo
do meu próprio
caos.

o câncer 
realmente
só se espalha 
através de sequelas
quando a gente não encontra 
a resposta 
para as enfermidades
na nossa própria
(pro)cura da eternidade
e na quimera
de todo estado 
ou destino
terminal.





23 agosto, 2016

libertação


cada artista 
cria a sua própria abstração.
toda vertente universal
é rotulada.
ora no filtro amarelo
ou branco
o tom vermelho
azul
e dourado,
ditam o
reencontro
sem soprar
nenhuma 
palavra.

a fuga da (l)imitação
é antiga.
toda (re)leitura
é uma nova linguagem
seja ela
literária 
ou não. 

qualquer entendimento
é impossível
se a teoria esquecer
de que o sentido
não tem espaço 
para a fluidez.
o fim é o início
de um erro 
que já foi
algum dia
talvez
(des)construído.

na prática,
a renúncia da paixão
é a liberdade
de qualquer plano fixo.
a força da natureza
se faz na pausa
da mortalidade ativa
do meu próprio 
suspiro passivo
que vai
da garganta rouca
até a entrada
de todos os locais
de todas as saídas
e qualquer pulmão.

//é tudo abismo.//

a imaginação 
era a realidade
da permanência.
desfaço o nó
da finitude 
em laços 
que se (trans)formam
ora em imagens
ora em moldes,
horas sem formas
de partículas sólidas
finalmente
divididas.

o que fica é a fortaleza
da existência,
seja na presença 
ou na falta dela.
quando o contraste
é catarse,
a diferença 
é a igualdade 
desmascarada.

hoje,
o princípio individual
é sentir a falta
da calma reflexiva
que tal arte me causa,
e não a vontade 
passional
de respirar a vida 
que 
quando abstraio
pouco a pouco
não me solta
só 
me 
mata.

18 agosto, 2016

a cor do ser


a dor mede
e não adormeço.
ando sentindo
sem sentido
e tenho tocado
as notas 
sem formar
qualquer 
acorde
compasso
união
rotina
ou ritmo.

com o corpo cansado
meus olhos me cortam
ao invés de cerrar.

//todo ritual é um conjunto 
de desejos entre fios místicos//

mente atrelada
estafa de todos os
estados
estradas
esquinas
endereços 
destinos
distintos

o rastro de cada tempo
rebate, retranca, resgata
e transborda.

eu só quero mesmo
poder dormir 
sem construir
ponto nodal
a cada noite
insone
em que o nó
górdio
nas madrugadas 
corta 
desata 
e desalinha
tudo de novo 
sem sequer
me acordar
na manhã 
de cada
cor
e ação 
do meu
dia
a
dia
após 
o outro.

15 agosto, 2016

acachapante


eu admito:
seu jardim é como o mundo todo
observo, aceito
e solenemente
de longe 
admiro
e agradeço.

a terra, o ar
a água
e o fogo
não compreendo tanto
como gostaria,
mas tento 
e te ensino
aqui mais perto
a analisar.

eu sou
eu sinto
eu tenho
todas as razões 
e ações 
que ditam
a astrologia
do meu (im)próprio
destino.

ressignifico o brilho 
do meu universo.
o conflito interno bruto
vermelho, verde e amarelo
no céu azul
se chocam
e se paralisam
com luta 
e sem luto.
a melancolia não existe
atiro no espaço.
o alvo que enceta
não acerta
mas também 
não erra
porque já não
mais persisto
na mira do antigo
olhar lunar.

depois que te avistei,
meus olhos têm mais cores
e as flores têm mais cheiro.
o sol de hoje
já não é mais um qualquer
pesadelo.
controlo o descontrole
da sinestesia.
o perfume da distância 
é o único sentido
que aí e aqui 
me tira do eixo
e me desequilibra.

assim,
nos sonhos,
o toque e ritmo
têm movimentos
em que o tempo
reconhece a frequência.
ao acordar,
anoto e não esqueço
eu sempre escrevo 
o que mais me marca
em você.
a vida não mais chora
o soro é sorrir
ao fazer música
e poesia
porosa.

no fim,
eu prefiro tudo isso que a gente tem
do que nos perder
por não te encontrar.

esses versos, sim
são todos seus.
todas as linhas tortas
foram as mais diretas
que já escrevi
colhendo e plantando
versejando
por você 
pulsar.

equilíbrio lúdico do mercúrio


falta muito braço 
para pouco abraço.
água limpa
para o poço fundo.
pé para
o percalço raso,
e muita mina
para poucos recursos.
o tesouro que encontro
é minério de fogo
da outra
moeda
mistério
de fora
do campo
do mundo.

//tudo o que sobra
é sina//

três continentes
a minha escolha
sem habitar
algum território.
despreparada
eu preencho
o meu espaço 
com figuras 
de outros dias.
o clima lá do alto
não condiz 
com o chão
que me empurra.

//todo impulso para frente
necessita de um recuo.//

o pulo nem sempre
tem alcance
quando o tombo
que me prende
simultaneamente
me incita.

a vida é conflituosa
e o equilíbrio é mal dosado.

tenho fome 
e desejos 
sobre restos.
sobram rimas
e vestígios 
em todos (r)astros
que eu não falo.
restam raios
para pouca sombra
e rasgo versos
sem prece
sem oração
sem sujeito 
sem verbo
só pronome
pre(ju)dicado.

//toda sentença tem período.//

enquanto o ciclo for natural
meu sentimento sempre será,
enfim,
reciclável.

desperdício é o tempo
recorrente e paciente
na loucura que me rege.
toda dor de quem (pres)sente
e não passa
é ferida que dói 
no presente
mas não estanca no futuro
já que o fluxo do sangue 
é correnteza do passado.
não sou doutor
nem sou agente
nem somos nós
e nem cura
(conscientemente)
eu acho.

sobejo o sentimento
e entrego todos os pontos.
cicatrizo o beijo do antes
e viro jogo,
devolvo as cartas.
tudo o que me falta
no tabuleiro
é cheque-mate
batalha naval
imagem & ação.
quando a vez
da mesa 
for uno
peço
(re)truco.
sobra cara a cara
e resta um
na rodada inteira.
no passa 
& repassa
o termômetro 
se quebra
escorre
vaza.
na tabela
e no quadro
o balanceamento 
do mercúrio não é o ou(t)ro.

sempre chego
no pódio 
alcançando 
a prata
me perdendo
no objetivo
central
de cada
parte
do jogo.

---

(em homenagem à m. campilho)